não posso deixar de colocar aqui um livro de um dos meus autores favoritos (julgo ter lido dele contos que há várias décadas não se publicam, além dos livros «consagrados» ou de referência), Steinbeck, ligado por uma amizade profunda ao fotógrafo Capa. Vem isto a propósito da reedição do seu trabalho conjunto, palavra e fotografia, da sua viagem pela antiga União Soviética, após o fim da II Guerra Mundial.
«O mais difícil do mundo para qualquer pessoa é provavelmente a simples observação e aceitação daquilo que acontece. Deformamos sempre as nossas imagens com as nossas expetativas, esperanças ou receios. [...] [Por isso, talvez] O MEDO DA MÁQUINA FOTOGRÁFICA É PROFUNDO E CEGO».
JOHN STEINBECK, in A Russian Journal, com fotografias de ROBERT CAPA. A tradução portuguesa é muito recente [1ª edição de abril de 2018].
Nota: O livro relata uma viagem de descoberta ao «outro grande lado» (depois da II Guerra Mundial), quando a cortina de ferro descia sobre a Europa e as identidades nacionalistas se organizavam em torno de líderes que concentravam largos poderes sobre a invenção da realidade, e num mundo - tal como hoje - em que a propaganda dos governos se servia do carisma dos chefes, considerados acima de qualquer suspeita de crueldade, corrupção ou aproveitamento do poder para benefícios próprios.
Os exércitos tinham saído de uma guerra e treinavam-se para outras. Steinbeck e Capa pretenderam apenas testemunhar o que podiam ver: um povo que, no meio da miséria e da reconstrução, dançava e cantava, e receava outra guerra. Ao longo do livro são frequentes as ocasiões, não encenadas, de convívios onde a música, a bebida e o sonho estão sempre presentes.
Infelizmente
foram também frequentes as vezes em que Capa foi impedido de fotografar. É curioso como o receio das autoridades recaía sobre o fotógrafo - mas não sobre o escritor. Estaline dizia, então, que o escritor é o arquiteto da alma.
Editado por JoãoCRV, 19 Junho 2018 - 15:41 .