(…Respirem fundo que isto vai ser comprido mas, espero, não reminiscente do peixe-espada
…)
Às vezes “decreto” por aqui que uma foto é realmente um grande exemplo de “Fotografia” e, não me conhecendo pessoalmente, receio que alguns co-utilizadores possam ficar mal impressionados com a assertividade que, no fundo, não é apenas mais do que uma manifestação mega-positiva de gosto pessoal.
Tenho por hábito tomar os outros por inteligentes até prova em contrário e acredito que seja claro que quando afirmo “Isto é a verdadeira Fotografia”, estou apenas a exprimir o equivalente a “na minha opinião, isto é que é a verdadeira Fotografia”, num formato que é apenas condensado para poupar caracteres.
Acreditem que leio com atenção todas as opiniões que sejam diferentes porque, quanto mais a idade avança, mais me convenço que um dos maiores males das nossas sociedades modernas é a incapacidade de ouvir os outros, de considerar diferentes opiniões (…que não sobre factos, atentem…), ideias alternativas, se não para necessariamente concordar com elas para, pelo menos, tentar perceber o que as faz existir, de “onde vêm”, para “onde vão” e, nesse processo poder, até – como já aconteceu frequentemente – vislumbrar 3ªs vias, caminhos radicalmente diferentes que nem eu nem que me apresenta a seu ponto de vista alternativo tivéssemos ainda descortinado.
…Mas, quando faço estas afirmações mais assertivas, faço-o normalmente ancorado nalgumas noções e/ou análises objectivas, fruto de muitos anos a observar Arte, em geral, e Fotografia, em particular.
Acreditem ou não, existem algumas regras tangíveis, ou pontos de referência, se assim quiserem, que podem enquadrar aquilo que se pretende em linguagem fotográfica, enquanto instrumento único de congelamento de um momento de luz no tempo.
Essas regras têm a ver com composição, aproveitamento da luz disponível ou sua transmutação, jogo de cores e formas em termos de discurso, na captura e direccionamento da atenção do observador e desenvolvimento de “narrativas”, tão mais ricas quanto maiores e mais sobrepostos forem os seus níveis em termos de balanço entre o explícito e perceptível pelo colectivo e o implícito, passível de ser descodificado numa comunicação mais pessoal entre o criador e o observador.
Estas “regras” (…termo um pouco infeliz mas que uso à falta de melhor…) são tão mais atraentes e difíceis de domesticar quanto mais se comprovam fluidas, mais referenciáveis pelo subconsciente, pela análise emotiva, do que propriamente inflexíveis e ancoradas em leituras racionais de invocados “cânones”.
A incompreensão destas características quasi-únicas da Fotografia enquanto meio de expressão comunicacional e, quando sublimada essa mera expressão, em vector de Arte, é que faz com que proliferem concursos que atribuem prémios equívocos a ainda mais equívocos trabalhos ou que estejam, por estes dias, as ruas das cidades pejadas de fotógrafos a fotografar na rua convencidos de que estão a fazer “Street Photography”.
Como exercício ilustrativo sobre o que escrevi, sugiro que visitem um livro intitulado “The Great LIfe Photographers”, publicado pela Thames & Hudson, uma colectânea de fotografias dos grandes fotógrafos que trabalharam para a “Life Magazine”
Vejam as fotos escolhidas pelo editor para ilustrar o trabalho dos referidos fotógrafos e interroguem-se porque é que de centenas e centenas de milhar de fotos, talvez milhões, disponíveis em arquivo, todas (…todas, sem excepção…) as escolhidas para para o livro “funcionam” nos níveis narrativos e emocionais que citei.
Interroguem-se por que raio de coincidência não conseguimos encontrar uma única da qual se possa dizer “hmmm…fraquinha…”.
...Vem isto a propósito de quê?
…de uma foto aqui postada por um co-utilizador que, como outras que já por cá surgiram (…e, possivelmente muitas outras que apenas não comentei porque não as vi…) mereceu uma entusiamada apreciação minha extremamente positiva.
Como acredito que, quando se trata de Fotografia, devemos saber explicar o porquê das nossas preferências e, neste caso particular, o porquê de tão veementes ecónomos aqui vão as razões pelas quais a referida fotografia, por intenção ou mero acidente, resultou em algo que classifiquei de “brutal”.
(…o “acidental”, aqui, não tem qualquer intenção pejorativa. Uma parte significativa da capacidade total de um fotógrafo em termos criativos passa por apenas por “estar lá”, “intuir” a fotografia e, depois, saber “validá-la” ao nível da edição, quer por simples triagem, quer por ponderada e eficiente edição que “amplifique” o que já está no registo original…)
A fotografia é esta:

O que tem de assinalável então? O que é que a torna especialmente eficiente enquanto registo fotográfico?
1. Reparem na linha diagonal, definindo a separação entre zonas de sombra e altas-luzes que cruza a fotografia do canto superior esquerdo para o inferior direito, numa trajectória consentânea com o varrimento de leitura dos Ocidentais.
Reparem, também, que a trajectória é descendente, o que em termos discurso subconsciente afirma “conclusão”, “epílogo”, “conclusão”. Invoca também “perda”, “nostalgia”, uma possível leitura negativa associada ao vazio deixado pela referida conclusão.
Assim sendo, o olhar do “leitor” vai sendo conduzido da “esquerda positiva” para a “direita negativa” e, no percurso vai cortando zonas binárias, de “tudo” ou “nada”, de muito escuro ou muito claro.
Num apelo ao mais emocional, a referida linha passa também pelo “velho” pelo “novo”, acentuado assim o carácter de antítese radical da “narrativa”.
Finalmente, como tudo é feito de pormenores, quando tocamos o intuitivo, o que não é consciente, reparem como a “conclusão” que acima citei, fruto da trajectória vs. sentido de leitura tradicional é, ela própria, convertida em mais um elemento binário pelo ligeiro arqueamento para cima da referida linha.
O arqueamento para cima, “positivo” portanto, desafia a “conclusão” anterior e reforça o carácter geral, radicalizando a dicotomia estabelecida por esta linha dominante.
Está concluída a referida linha ou, pelo contrário aponta para uma continuação dinâmica?
2 - Após “bater” no canto inferior direito a linha principal faz “bounce back” e, através de novo arco ancorado na bordadura do lado direito, estabelece uma linha secundária que nos leva da base ao olhar da figura com a face enquadrada no topo, à direita.
Este olhar, por usa vez, conduz-nos aos olhos do par, do “companheiro”, numa última linha que une os olhos destes 2 elementos humanos.
3 - Imprimam a foto, peguem numa caneta e vejam como as três linhas que mencionei se constituem, se necessário, apenas e por si só, numa forma gráfica de grande elegância e fluidez, quase um “V” boleado, em “check-mark” perfeito.
4- A dicotomia continua, nos textos e subtextos que imagem faz “soar”.
A jovem, cuja cara está acima da linha principal e para qual somos conduzidos por uma sexualidade implícita, tem a cara na luz e “lida” bem com o esse “excesso” de iluminação e com a modernidade traduzida pela utilização do “gadget” electrónico, enquanto a senhora mais à esquerda tem a sensualidade hiper-neutralizada de uma forma potenciada pela incapacidade de lidar com a luz e pela utilização de óculos, em suplemento à idade já mais avançada.
A jovem afirma uma capacidade de “coping” a um nível que lhe permite, até, tornar-se ausente do momento, enquanto a senhora mais idosa é representada como tendo dificuldade de lidar com a situação física a que está a ser exposta.
5 - O centro dinâmico da foto encontra-se ligeiramente deslocado para cima e para esquerda, fruto de uma outra linha que une o canto inferior esquerdo com, exactamente, (meçam se não acreditam) um ponto a 2/3 da medida da bordadura de topo. Ao longo dessa linha corre o braço da figura central com o telemóvel e a mão que o segura.
Nesse centro, estabelece-se nova dicotomia, numa simetria entre o peito escorreito e exposto com identidade atribuída pelo rosto iluminado da rapariga, à esquerda e, abaixo desse centro, de forma simétrica, a mulher de peito coberto e volumoso, de identidade oculta pela cara mergulhada nas sombras.
Que a pele das duas personagens seja, também, diametralmente oposta em cor é uma daquelas felizes coincidências que, não podendo ser prevista pelo fotógrafo, se torna em justa compensação, no formato “cereja no topo do bolo” deste “tour de force” criativo”.
Textos e subtextos para dar e vender…
6 - As três figuras humanas nos limites esquerdo e direito do enquadramento tem expressões semelhantes, fechadas, com um olhar na mesma direcção que remete para uma dimensão introspectiva, quasi-meditativa.
Que estejam nos limites do enquadramento, com a última figura, a masculina, do lado direito, já fora dele excepto pelo mais importante, os olhos, é uma lição em como as regras de Composição Clássica (…regra de terços e quejandos…) enquanto instrumento de discurso fotográfico é algo que se tem que aprender, verdade, mas apenas como “baliza” que marque os momentos em que as “departures” de tais regras funcionam de forma ainda mais eficiente.
Este pequeno pormenor, a capacidade de saber quando ficar atado às regras de composição e quando sair delas de forma eficaz é impossível de ensinar, já que é de carácter eminentemente intuitivo, dificilmente quantificável e é um dos principias critérios para reconhecer um verdadeiro olhar fotográfico.
Reparem como as linhas descritas, os elementos humanos de composição e as nuances de luz e sombra criam 2 enormes espaços negativos, dois triângulos negros de vértices opostos, que se equilibram entre si e que ajudam a afirmar o todo da composição.
7 - Outros vectores que contribuem para eficácia total da foto podiam ser mencionadas, como o “ambiente” criado, as “histórias” associadas – as reais ou as por nós “projectáveis” -, o jogo de cores em termos de complementaridades gráficas, etc.
Fico-me apenas por esta já extensa análise na esperança de ter contribuído para o V. arsenal de ferramentas de leitura, de forma a que, ampliando a capacidade de reconhecimento e análise, e mesmo se não gostando necessariamente do mesmo que eu, possam perceber porque tantas vezes “luto” para que se não consuma “gato por lebre”, em termos fotográficos.
Um abraço, desculpas pela “seca” e bons cliques...e, principalmente, os meus reiterados parabéns ao pdro por ter feito uma foto de que qualquer dos Grandes se orgulharia.
FK
Editado por FotoKhan, 30 Novembro 2016 - 22:16 .



