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Foto

O que faz uma fotografia ser boa


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97 respostas a este tópico

Votação: O que achas mais importante numa fotografia?

O que achas mais importante numa fotografia?

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Partilhar Post #21 Ego Zarolho

Ego Zarolho

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Publicado 19 Novembro 2012 - 19:38


Uma foto de um XXX bem iluminado, bem focado, bem processado... será sempre a foto de um XXX.


Tenho que insistir nesta parte.


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Partilhar Post #22 Samwise

Samwise

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Publicado 19 Novembro 2012 - 19:59

Hmmm... a pergunta do título é diferente da pergunta na votação.  :happy:

Quanto à pergunta do título, podem ser todas as opções que apontas na pergunta da votação, e pode não ser nenhuma. Não há regras técnicas nem artísticas que possam ser definidas ou parametrizadas que resultem em fotografias boas. A Arte e tudo o que gira em torno dela é assim mesmo. A palavra é "subjectivo".

Quanto à votação, para mim são as três primeiras.

Uma foto de um XXX bem iluminado, bem focado, bem processado... será sempre a foto de um XXX.


E uma foto de um XXX não pode ser uma boa foto?




IT Partilhar Post #23 al-Farrob

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Publicado 19 Novembro 2012 - 20:01

Hmmm... a pergunta do título é diferente da pergunta na votação.  :happy:



O título não tem ponto de interrogação.


Partilhar Post #24 Samwise

Samwise

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Publicado 19 Novembro 2012 - 20:04

O título não tem ponto de interrogação.


:D

Mas é uma pergunta, ou não é uma pergunta      ...






Partilhar Post #25 Ego Zarolho

Ego Zarolho

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Publicado 19 Novembro 2012 - 20:28


E uma foto de um XXX não pode ser uma boa foto?


Não. Na minha opinião, não, a menos que (e aqui tenho que ir rebuscar algo imaginativo) introduzida num contexto em que faça sentido.

Como é óbvio, tudo começa e acaba na definição do que É uma boa fotografia. Se fosse possível obter consenso nisso, seria certamente mais fácil identificar quais os elementos, técnicas e outros afins que a ela conduzem.

Quer queiramos quer não, quando alguém menciona em voz alta "boa foto", à cabeça de cada um de nós vem um certo tipo. Até podemos olhar para uma foto que não é do nosso género favorito, mas que nos leva a concordar que é uma boa foto. Mas não seria a nossa escolha para exemplificar o conceito.

Imagino que, por exemplo, ao dizer "boa foto" alguns dos presentes imaginem uma paisagem fabulosa, grandiosa, viva nas cores e tonalidades, perfeita na composição, excelente na técnica (definição, filtros, produção, limpeza). Se me mostrarem uma foto dessas, que eu nunca seria capaz de atingir (nem que tentasse), posso reconhecer-lhe mérito, mas nunca seria a minha escolha.

Podem mostrar-me um retrato meticuloso, estudado, iluminado com uma perfeição e técnica de fazer inveja a um pintor do período clássico. Nunca o conseguiria igualar (nem que tentasse), e certamente reconheceria o seu mérito, mas nunca seria a minha escolha.

Podem mostrar-me uma composição laboriosa de meses em Photoshop, de conceito elaborado e reaização surrealista. Já sabem o que digo...

Podem mostrar-me uma foto de reportagem, enquadrada à pressa, tremida, Talvez até mal exposta, mas de assunto pungente ou fulgurante. Se me emocionar, independentemente dos deméritos técnicos, vou considerá-la uma grande foto. E esta sim, será a minha escolha. Porque ao olhar para ela pensarei no seu assunto, tema, contexto, e também admirarei o homem que neles mergulhou para obter essa imagem.

Dou um exemplo: Nao há muito tempo a minha mulher perdeu-me de vista numa exposição da World Press Photo. Foi encontrar-me a chorar em frente a uma fotografia. Podia ter sido tirada por uma criança com uma máquina descartável. Se calhar até foi. O que interessa era o que nela constava, um homem a tentar salvar a vida de outro e falhar. E via-se a expressão da dor no seu rosto. Só isso. Despida da legenda que explicava a situação, a fotografia, como imagem por si só, nada valeria. Depois de saber o que retratava, tornou-se inesquecível.

Por isto digo: para mim, não, uma fotografia bem iluminada de um XXX só vale XXX.


IT Partilhar Post #26 al-Farrob

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Publicado 19 Novembro 2012 - 20:38

:D

Mas é uma pergunta, ou não é uma pergunta      ...





Não. Se fosse uam pergunta teria colocado o ponto. Sei que está fora de moda mas eu aprendi a escrever com pontuação, não vou agora mudar de hábitos :)


(...)
Como é óbvio, tudo começa e acaba na definição do que É uma boa fotografia. Se fosse possível obter consenso nisso, seria certamente mais fácil identificar quais os elementos, técnicas e outros afins que a ela conduzem.
(...)


Não precisa cavar fundo nessa definição para continuar este inquérito e esta discussão. Se cada um for sincero e votar, e argumentar, naquilo que o preocupa dentro daquilo que para si é uma boa fotografia já será bom. Obviamente isso levará a opiniões diferentes conforme os interesses, sensibilidades, e por aí fora. Não vejo mal nenhum nisso.


Partilhar Post #27 Ego Zarolho

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Publicado 19 Novembro 2012 - 20:43

Se cada um for sincero e votar, e argumentar, naquilo que o preocupa dentro daquilo que para si é uma boa fotografia já será bom. Obviamente isso levará a opiniões diferentes conforme os interesses, sensibilidades, e por aí fora. Não vejo mal nenhum nisso.


Completamente de acordo. Por isso estou a adorar esta partilha e troca de pensamento, a discussão foi muito bem lançada. Nunca atingiremos consenso, mas saímos todos enriquecidos por ouvir as opiniões dos outros, particularmente se forem diferentes das nossas.


Partilhar Post #28 Samwise

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Publicado 19 Novembro 2012 - 20:49

Não. Se fosse uam pergunta teria colocado o ponto. Sei que está fora de moda mas eu aprendi a escrever com pontuação, não vou agora mudar de hábitos :)


Mas não tem mesmo nenhum ponto no fim (:lol:), e como afirmação é uma frase que fica incompleta sem outros predicados.  :humm:  (mas ok, a frase é tua, tu é que sabes o que pretendes expressar através dela - eu só a posso interpretar "à luz da ignorância". :D)

Crocodilo, tocaste em vários pontos importantes/interessantes, mas desviaste um pouco as conclusões para um patamar diferente da minha pergunta - que se resumia a perguntar se uma foto XXX não podia ser uma boa foto. "Boa" é diferente de "emotiva" ou "inesquecível", embora de forma não exclusiva.

Ainda assim, completamente de acordo com tudo o que dizes, e em particular no que toca aos sentimentos. A Arte que perdura (em nós) é a que desperta emoções. Pode é não ser suficiente para a "intemporalizar" ao olhos da civilização, mas para mim também é essa a que conta mais.  :th_up:

No caso da fotografia e das alíneas apresentadas, passa por cima de qualquer uma, e não depende de nenhuma em particular. Depende das emoções que estiverem a passar à nossa frente e da habilidade do fotógrafo em as captar.



IT Partilhar Post #29 al-Farrob

al-Farrob

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Publicado 19 Novembro 2012 - 20:54

Mas não tem mesmo nenhum ponto no fim (...)



Pela simples razão que não costumo meter pontos no final dos títulos, a não ser quando se trate de reticências, pontos de interrogação ou de exclamação. Voilà! Siga o tópico.


Partilhar Post #30 APAF

APAF

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Publicado 19 Novembro 2012 - 23:41

Pedimos desculpa da dimensão do post, mas espera-se que seja útil.


Em primeiro lugar analizar uma imagem é bem mais do que dizer que gostamos ou não gostamos. O gostar de uma imagem não faz dela uma boa ou má imagem. Confundir o gosto pessoal com a qualidade significa fecharmos a nossa capacidade de análise a um mundo restrito, que nos torna incapazes de analizar uma obra de arte. Aliás, é por isso que uma imagem (ou uma obra de arte) é em si  boa ou má e não é relativa esta classificação e não depende do gosto de cada um. Quando se diz que uma imagem pode ser boa para uns e horrivel para outros, estamos a cair neste erro de relatividade, de misturar o gosto com a análise objectiva. O facto de não gostarmos da obra de um fotógrafo não nos deve impedir de reconhecer um bom trabalho. Mais, uma fotografia, tal como uma pintura, tem um valor intrínseco, independentemente da época ou da análise. Isto para além de podermos questionar a capacidade de análise e conhecimentos de quem gosta ou não gosta. Também tudo isto nada tem a ver com “estilos” pessoais, que muitas vezes não passam de desculpas pelos erros, ou razões para alguns teimosamente se manterem no mesmo caminho.

Por isso a qualidade não é relativa. Um Picasso ou um Rembrant são sempre um Picasso ou um Rembrant. Gostemos ou não. Claro que não há uma escala e claro que ao fim de muitos anos a ver milhares (sublinho milhares) de exposições as imagens boas “sentem-se” em 2 segundos.

A qualidade também não é uma questão de recordarmos uma imagem mais ou menos facilmente. Vejamos a publicidade. As imagens são construídas para terem impacto, para ficarem na memoria, e raramente são grandes obras de arte.

Não acho errada a pergunta, embora cometa o erro de se resumir excessivamente ao campo técnico, o que pode significar ficar preso a espartilhos formais pouco criativos. Como alguém já aqui escreveu a fotografia estuda-se. A educação visual obtêm-se vendo exposições, não só de fotografia, mas de pintura, escultura ou outras, tendo uma cultura geral o mais abrangente possível, sabendo História, História de Arte, Arquitetura, etc. Caso contrario apenas sabemos mexer nos botões da máquina, e isso é pouco.

Quando na crítica fotográfica se analiza uma imagem temos de considerar

- o sentimento que ela desperta, já que uma imagem tem de transmitir algo, que poderá ser semelhante ou diferente do que o fotógrafo sentiu, segundo as correntes estéticas seguidas. Há quem entenda que o sentir do fotógrafo se deve transmitir ao público, linha seguida por Sebastião Salgado, por exemplo, e há quem considere que essa preocupação só por si é castradora da capacidade criativa do artista. Independentemente da mensagem que chega ao público ser ou não a mesma do emissor/fotógrafo, o facto é que terá de haver uma mensagem no receptor/público;

- a sua execução técnica, tendo em conta a medição de luz, a focagem e a profundidade de campo, entre outros aspectos. A técnica é, no entanto, algo que deve suportar a estética e deve servir-nos para não perdermos oportunidades. Não deve nunca ser o suporte único da fotografia. Atenção também aos conceitos de “qualidade”, esses sim subjectivos e adequados ao fim. Uma fotografia feita com uma pinhole ou um telemóvel pode ser adequada para figurar numa galeria e pode não ser adequada para outros fins;

- a inovação e maturidade estética nela expressa, que por vezes pode subverter a técnica. É importante refletir se essa imagem é inovadora ou não, ou de que modo ela se enquadra numa dada época ou movimento estético. Só por isso, julgar uma imagem é muito mais do que dizer que se gosta ou não;

- a luz, quer em termos de qualidade quer no facto de respeitar a realidade;

- o ambiente transmitido, que se pode traduzir pelo sentir de um momento ou de um local como se lá estivéssemos;

- o “momento certo” do disparo, que pode ter a sua tradução na expressividade quando fotografamos pessoas;

- a mensagem ou conteúdo da imagem;

- a composição, tendo em conta o que a imagem sugere, a distribuição dos elementos no espaço fotográfico e o sentido da leitura de uma imagem, que é da esquerda para a direita, em varrivento horizontal, para quem escreve com a mão direita e da esquerda para a direita, independentemente de uma estética mais moderna ou mais conservadora. Há também que não esquecer que a ruptura das normas deve ser consciente e motivada pelo sentir da imagem e nunca pelo seguidismo de modas ou imitações.

Por isso se torna absurdo julgar uma imagem pelos filtros que usa, pela técnica mais ou menos rebuscada, pelas cores ou pela definição. Aliás, a fotografia não vive desses enfeites que são os filtros e os efeitos de photoshop, admitindo-se estes apenas como opção de desconstrução da imagem e nunca como forma de valorizar aquilo que é banal. A fotografia não vive dos “efeitos”, mas antes de uma variedade de qualidades que valem pelo seu conjunto e, como prova disso, temos um vasto conjunto de imagens que têm ficado para a História da Fotografia.

Por outro lado quando se reflecte sobre o trabalho de um fotógrafo devemos tentar compreender aquele como parte de um percurso. Conhecer esse percurso é compreender o porquê das imagens que temos à frente e não sermos influenciados ou desculparmos momentos menos bons que todos temos. Este percurso tem também muito a ver com a gestão do nome, algo tão ignorado no nosso país pela grande maioria dos fotógrafos. Em que galerias expôs, que colecções integra ou qual a sua cotação no mercado da arte são elementos importantes, e tão importantes quanto a ordem de crescente importância dos locais onde expôs. Através deste percurso também se podem compreender rupturas ou continuídades estéticas, que é preciso ter em atenção para o historial do fotógrafo. Juntemos a isto o conceito que está presente na coerência dos trabalhos. Se todos os que usam uma máquina dominarem a técnica, é o conceito o elemento diferenciador, aquilo que torna a imagem pensada e sentida, ou seja a marca pessoal do artista.


Também a luz é fundamental na beleza da imagem e na composição. A luz varia na sua qualidade, intensidade e direccionalidade, o que se reflecte não apenas na leitura do objecto, mas também na ambiência que a imagem traduz, o que tem uma estreita relação com a atitude estética, que varia de fotógrafo para fotógrafo, ou mesmo de trabalho para trabalho. A luz escolhida para trabalhar em fotografia de turismo pode nada ter a ver com a luz que se adopta em fotografia de autor de tendência mais contemporânea. Compreender isso é, logo à partida, perceber o tipo de trabalho que estamos a ver. Claro que isto já está muitos degraus acima da medição de luz ou de quaisquer outras abordagens de ordem meramente técnica, que pode mesmo motivar opções técnicamente “erradas”, quer seja na temperatura de côr, quer seja na exposição.

O ambiente é também algo que a imagem terá de captar. É um elemento subjectivo e difícil de definir, mas que de facto existe. Está relacionado com o posicionamento da máquina, importante para os planos e a composição, com o momento, com a objectiva usada e, fundamentalmente, com o grau de envolvimento que o fotógrafo mantém com o conjunto dos objectos e pessoas fotografados.

Um dos elementos mais críticos de uma imagem é o momento da decisão do disparo. O que se pretende fotografar é aquilo que prevê ir acontecer ou aquilo que visualiza? Neste último caso, entre o acto de visualizar uma dada imagem no visor, reagir carregando no botão, ocorrer a abertura do obturador e ser efectuado o registo pelo sensor, pode ocorrer um espaço de tempo que faça com que aquilo que registamos já não seja aquilo que vimos, mas antes aquilo que ocorreu depois. Pode ser uma fracção de segundo, mas é esse tempo que fará toda a diferença. É aquilo a que Cartier Bresson chamava de “o instante decisivo”. Embora hoje ele não constitua um elemento totalizador da análise fotográfica, a verdade é que continua a depempenhar um importante papel. Assim, o fotógrafo terá de gerir algo que é contraditório:- por um lado tem de ser rápido a reagir, por outro lado ser ponderado, atendendo a diversos aspectos técnicos e estéticos, o que o torna lento. Por isso a estética deve ser intuitiva evitando com isso a perda de tempo precioso. Daí ser tão importante a educação visual. Sob o ponto de vista técnico a acção deve também ser intuitiva e quase mecânica, mas consciente e acertada. Isso evita excessos de formalismo incompatíveis com uma modernidade no olhar. A instantaneidade representa uma pequena fracção do tempo, contínuo, que registámos fotograficamente. A escolha desse momento não deve ser fruto do acaso, mas antes de uma atitude, de uma predisposição, da concentração do fotógrafo e do seu domínio técnico e estético, onde, neste último ítem não se pode deixar de acrescentar uma genuídade estética.

No meio de tantos considerandos teóricos há que nunca esquecer que a imagem fotográfica deve proporcionar sempre um momento de fruição, quer de quem a efectua, quer de quem a vê. Independentemente de gostarmos ou não dela.

Estes são alguns dos aspectos que se analizam numa imagem. Só acrescentaria mais dois aspectos, mais subjectivos, mas nem por isso menos importantes. Um é ter uma mente aberta. Ver uma imagem significa vê-la sem preconceitos, sem ter ideias feitas à partida e, se não se gostar ou não se compreender, em vez de recusar logo, cada um interrogar-se se está preparado para compreender aquilo que vê. O outro aspecto é que por vezes não há palavras para certas justificações. Há imagens que se sentem, o que tem a ver com educação visual, fruto de se verem muitas exposições, sejam de fotografia, sejam de escultura, pintura, artes decorativas, etc.



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Samwise

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Publicado 20 Novembro 2012 - 01:21

Viva, APAF,

Gosto verdaderiamente das tuas intervenções, do modo como expões criteriosamente e de forma quase paciente as ideia, e do conteúdo rico que denota experiência e sabedoria.

Mas não quer dizer que concorde com tudo.

Já estive muito mais convencido dessa separação que apontas entre gosto pessoal e qualidade, mas à medida que vou ganhando experiência, e à medida que a minha cultura geral se vai alargando, cada vez mais me convenço que é uma separação que não faz sentido, por um lado, e que é inútil, por outro. A razão não podia ser mais simples: nós não podemose ser mais do que aquilo que temos acumulado dentro de nós - e esse "mundo restrito" de que falas vejo-o não como uma clausura, mas como a EXACTA medida da nossa capacidade a avaliação. O gosto é também a nossa capacidade de avaliação, moldado por muitas variáves, e adaptado em função daquilo que estamos a ver/ouvir/sentir/etc.

O que é uma análise objectiva de um objecto artístico? Para mim é um termo que não tem expressão prática. Eu posso sempre ouvir as palavras sábias de alguém que tem mais bagagem do que eu - que tem a História toda na cabeça, que conhece as motivaçoes do artista, etc - e aprender com elas, mas a minha "avaliação objectiva" será sempre necessariamente diferente da de outra pessoa - e logo não é objectiva. E qual delas interessa mais? A minha, ou a de outra pessoa qualquer, com mais ou menos experiência/conhecimentos? Sem dúvida que é a minha, mesmo que nesse curto entretanto ela tenha mudado em função da nova aprendisagem. Mas à mesma, ela depende daquilo que eu sou/gosto/percebo/tenho dentro de mim.

Misturar o gosto com a análise prática não é um erro, é uma realidade a que ninguém pode fugir. A questão é que quanto mais abrangentes forem os nossos conhecimentos, mais conseguimos colocar uma máscara sobre aquilo que será o gosto - e falarmos de "maneira culta em qualidade".

E se eu não gostar de um Picasso ou de um Rembrandt, por mais conhecimentos que tenha sobre vida e obra de tais sumidades, de que me serve separar o gosto da qualidade? De que me serve dizer que obra x ou y é excelente se lá no fundo "não me diz nada"? E como posso eu afirmar que é excelente nessas condições? Estarei a querer justificar o gosto dos outros? Em ultima instância, de que me serve uma discussão sobre o erro de confundir o gosto com a qualidade se eu não posso gostar de outra maneira das coisas de que gosto? (sem colocar de parte que este "gosto" é uma aprendisagem em constante evolução - e que essa maneira assenta numa dinâmica)

Curiosamente, tudo o que escrevi acima encontra ecos interessantes no teu último parágrafo:

Só acrescentaria mais dois aspectos, mais subjectivos, mas nem por isso menos importantes. Um é ter uma mente aberta. Ver uma imagem significa vê-la sem preconceitos, sem ter ideias feitas à partida e, se não se gostar ou não se compreender, em vez de recusar logo, cada um interrogar-se se está preparado para compreender aquilo que vê. O outro aspecto é que por vezes não há palavras para certas justificações. Há imagens que se sentem, o que tem a ver com educação visual, fruto de se verem muitas exposições, sejam de fotografia, sejam de escultura, pintura, artes decorativas, etc.




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diogon

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Publicado 20 Novembro 2012 - 12:25

E se eu não gostar de um Picasso ou de um Rembrant, por mais conhecimentos que tenha sobre vida e obra de tais sumidades, de que me serve separar o gosto da qualidade? De que me serve dizer que obra x ou y é excelente se lá no fundo "não me diz nada"? E como posso eu afirmar que é excelente nessas condições? Estarei a querer justificar o gosto dos outros? Em ultima instância, de que me serve uma discussão sobre o erro de confundir o gosto com a qualidade se eu não posso gostar de outra maneira das coisas de que gosto? (sem colocar de parte que este "gosto" é uma aprendisagem em constante evolução - e que essa maneira assenta numa dinâmica)


Não querendo estar a imiscuir-me no "direito de resposta" da APAF, apenas digo que tens obviamente todo o direito a não gostar do Picasso ou Rembrant, é a tua liberdade individual e intelectual, o que "não podes" dizer é que o trabalho deles não tem qualidade, com base no facto de não conseguires gostar deles. (ainda que tenhas eventualmente todos os elementos relacionados com as obras deles)


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Publicado 20 Novembro 2012 - 12:42

Não querendo estar a imiscuir-me no "direito de resposta" da APAF, apenas digo que tens obviamente todo o direito a não gostar do Picasso ou Rembrant, é a tua liberdade individual e intelectual, o que "não podes" dizer é que o trabalho deles não tem qualidade, com base no facto de não conseguires gostar deles. (ainda que tenhas eventualmente todos os elementos relacionados com as obras deles)


Por que não?

Segundo aquilo que disse no post anterior, considero intelectualmente inútil dizer que algo tem tem qualidade e depois não gostar dela.

Vou aproveitar para meter ao barulho um outro conceito: "valor".

--

A propósito do XXX, não queria que se perdesse essa questão no meio de este outro debate. Uma foto de XXX não pode ser uma boa foto? Pornografia não pode ser considerada "arte". Ou mesmo "boa arte"?

(nota, não tenho nada contra o Picasso nem contra o Rembrandt, foram os nomes que sugeriram e eu limitei-me a aproveitar as deixas  :lol:)




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Publicado 20 Novembro 2012 - 13:35

Samwise

Eu até não discordo totalmente de ti. Mas vamos a ver do que estamos a falar.

Se vires os primeiros posts e muitos dos que passam na net a qualidade de uma imagem resume-se a gosto= é bom / não gosto = é mau. O que é muito redutor, sendo que a análise de uma imagem é muito mais do que isso. O que pretendo mostrar é que a qualidade de uma obra é independente do nosso gosto porque este é condicionado pelos nossos conhecimentos. É claro que à medida que eles vão progredindo essa fronteira se vai esbatendo. É evidente que à medida que vamos educando o nosso gosto vamos distinguindo a qualidade. É também claro que à medida que sabemos mais também somos mais tolerantes. Um pintor ou um fotógrafo pode não nos dizer nada, mas podemos reconhecer a validade do seu trabalho.  Só discordo quando afirmas que misturar o gosto com a análise não é um erro e lhe conferes um valor absoluto. Mesmo quem sabe muito, mas mesmo muito, tem de estar sempre aberto ao erro e à mudança. Tem de estar sempre aberto a não ter “gostado” (entre aspas) do trabalho de um fotógrafo não por ele não ser bom, mas por não o ter compreendido. Por outro lado afirmas “e se eu não gostar de um Picasso ou de um Rembrandt, por mais conhecimentos que tenha sobre vida e obra de tais sumidades, de que me serve separar o gosto da qualidade? De que me serve dizer que obra x ou y é excelente se lá no fundo "não me diz nada"?”. E para que é que tem de servir? E porque é que não podes viver em paz com o teu gosto e admitir que afinal é uma boa obra?

Quanto á objetividade absoluta ela não existe. Nem na filosofia. Como não há uma opinião única (e ainda bem!) não pode haver objetividade. Mas em arte não se pede objetividade. Isso seria um contrasenso. A arte é criatividade. È interpretação. Logo não é rígida. Não tem uma interpretação única. A leitura de uma obra é diversa. Diferente é a qualidade. A qualidade da composição, do sentir, do traço, da luz, da técnica, e essas estão lá ou não estão. Podemo-las ver ou não, consoante as nossas capacidades.

Há, no entanto, no mundo da arte mudanças que o teu post abre á reflexão e que não foram referidas. Há uns anos, não pouco mais de meia dúzia, fazia sentido uma separação entre os vários géneros de fotografia: moda, arte, publicidade, ilustração, etc.  Hoje, e é uma realidade que ainda não é sentida em Portugal, tal separação não faz sentido. É verdade que ainda a usamos em termos pedagógicos porque é de mais fácil compreensão, mas tal coloca em causa alguns padrões de qualidade tidos como certos para a fotografia, hoje vistos como condicionantes criativos.



Partilhar Post #35 diogon

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Publicado 20 Novembro 2012 - 13:39

O "não podes" estava com aspas, já por isso, porque poder podes sempre.  :)

Mas estava a falar da qualidade "intrínseca" da obra, ou visto por outro lado, a qualidade consensualmente atribuída.

O facto de eu individualmente gostar ou não gostar não lhe atribui, só por si, qualidade, e muito menos retira.

Porque o gosto é o teu, a qualidade é a de todos...

 


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Publicado 20 Novembro 2012 - 15:39

O "não podes" estava com aspas, já por isso, porque poder podes sempre.  :)

Mas estava a falar da qualidade "intrínseca" da obra, ou visto por outro lado, a qualidade consensualmente atribuída.

O facto de eu individualmente gostar ou não gostar não lhe atribui, só por si, qualidade, e muito menos retira.

Porque o gosto é o teu, a qualidade é a de todos...

 


Estou a gostar da conversa, como não poderia deixar de estar.
Pego apenas nesta frase, a que está a negrito, não para discordar, mas apenas para sublinhar.

Consensualmente. Não é o mesmo que objectivamente, como também já foi frisado. Até porque na impossibilidade de ter como referência a objectividade, porque essa não se consegue atingir, temos que nos agarrar a alguma referência.

Da mesma maneira que não se conseguindo fazer análises sem catalogar e sem esquematizar, torna-se necessário recorrer aos catálogos e aos esquemas. Não como um fim, mas como um meio. Afirmar que não faz sentido catalogar ou esquematizar porque "anda tudo ligado" e que isso é redutor, é que nos deixaria desarmados, incapazes de partir para a análise. De estudar o que é que afinal anda ligado. Com que regras anda ligado. Como é que interagem as partes.

Voltando ao "consensualmente". Um consenso é sempre um compromisso em que as partes cedem algo. Umas mais que outras. Os consensos contêm em si a marca dos tempos, dos correntes culturais, de tudo. Ir contra um consenso não tem que ser mau, pode até ser muitíssimo bom. Não precisa de ser demonstrado, pois não?

A diversidade faz a força, também não precisa ser demonstrado, pois não? Mas também é preciso entender que a diversidade se compõe de partes que até podem ser antagónicas entre si. E as partes não têm que se submeter ao consenso, sob pena de o todo não tirar proveito do bem que é a diversidade. E consequentemente estagnar.

E, last but not least, a diversidade não se faz com cada parte a incorporar as características do todo, como parece ser ideia muito corrente. Cada homem não tem que ser simultaneamente alto, baixo, gordo e magro para haver diversidade. O todo é que tem que ser composto de gordos, magros, altos e baixos.


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Publicado 20 Novembro 2012 - 16:15

Só uma nota que pode não ter ficado explícita, o "consensualmente" referia-se somente ao universo dos historiadores de arte, críticos de arte, curadores, etc.


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Publicado 20 Novembro 2012 - 16:18

Só uma nota que pode não ter ficado explícita, o "consensualmente" referia-se somente ao universo dos historiadores de arte, críticos de arte, curadores, etc.



Desde que o etc. abranja as pessoas que pensam, observam, e etc., nada contra :)


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Samwise

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Publicado 20 Novembro 2012 - 16:20

Eu não sei se estou a gostar da conversa ou se apenas a estou a achar com muita qualidade.  :D

Se vires os primeiros posts e muitos dos que passam na net a qualidade de uma imagem resume-se a gosto= é bom / não gosto = é mau. O que é muito redutor, sendo que a análise de uma imagem é muito mais do que isso. O que pretendo mostrar é que a qualidade de uma obra é independente do nosso gosto porque este é condicionado pelos nossos conhecimentos. É claro que à medida que eles vão progredindo essa fronteira se vai esbatendo.


Porque o gosto é o teu, a qualidade é a de todos...


Consensualmente. Não é o mesmo que objectivamente, como também já foi frisado. Até porque na impossibilidade de ter como referência a objectividade, porque essa não se consegue atingir, temos que nos agarrar a alguma referência.


O que eu pretendo mostrar de minha parte é que: não concordo (bem) com estas ideias, que o gosto e a qualidade têm mais pontos de ligação do que pontos de afastamento (sendo que o "valor" é a cola que os une), e que a qualidade não tem de ser um ponto consensual para "todos", tem mesmo é de ser um ponto mais próximo de algo objectivo, moldado pelo intelecto individual, porque, ao contrário, não só estaríamos sempre a reboque de uma qualquer avaliação social (como me parece que acontece de forma mais ou menos geral), como também perderíamos duas das variáveis mais importantes envolvidas no conceito - o gosto e o valor. As referência a que "temos de nos agarrar" em primeiro lugar são os nossos conhecimentos e experiência acumulada - mas lá está, reconheço que são mutáveis e que podem "aprender" com a experiência social.

APAF, concordo que uma análise é muito mais do que um "gosto"/"não gosto", mas isso não implica que uma análise exaustivamente fundamentada não assente os seus pilares mais profundos no gosto de quem a faz. A questão da emoção determina depois a procura por uma explicação racional que a justifique. É mais ou menos assim que olho para a Arte.

A qualidade de uma obra não é condicionada pelos nosso conhecimentos? Mas então é condicionada pelos conhecimentos de outras pessoas. Ou seja, no fundo, pelos gostos dessas pessoas. E quem determina que os gostos dessas pessoas tenham de ser mais importantes do que o meu no momento em que eu estiver a apreciar uma obra? A questão do Diogon é outras as peças importantes que faltava no debate: Individual VS Social. Mas então, e o que dizer dos surtos de popularidade, os tais de onde retiramos exactamente a lição inversa: "não é por ser popular que é bom!"  :D

Em todo o caso, há muita da vossa argumentação com a qual estou de acordo, até porque serve tanto para justificar a vossa posição como para justificar a minha - há pontos de contacto que parecem... consensuais...  :D


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Samwise

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Publicado 20 Novembro 2012 - 16:24

Só uma nota que pode não ter ficado explícita, o "consensualmente" referia-se somente ao universo dos historiadores de arte, críticos de arte, curadores, etc.


Ou seja, uma MUITO pequena minoria determina então o que deve ser "consensual"...