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Quando a hermenêutica toca no pão, toda a metáfora se desfaz.


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1 resposta a este tópico

IT Partilhar Post #1 FotoKhan

FotoKhan

  • Membro
  • Registo: 30/01/2013
  • Posts: 1118

Publicado 12 Agosto 2018 - 16:34

Está história está para ser escrita há bastante tempo...

 

Já manifestei aqui, por diversas vezes, o "problema" que tenho com o NovoBancoPhoto (NBP).

 

Sinto, que, como veículo primordialmente virado para a Arte Contemporânea que é, deveria deixar cair a parte "Photo" da designação.

 

É meu entendimento que a "Fotografia" tem cânones, ferramentas, discurso e sintaxe própria e que, quando tais preceitos são observados de forma escorreita, intencional e com abordagens especialmente competentes e criativas as propostas se poderão sublimar, por essa via e exclusivamente por essa via, em "Arte".

 

Não acredito em "entradas por cima", onde, sob o imenso chapéu-de-sol de tudo o que se pode considerar "Arte", são feitas tentativas de "dobrar" produtos fotográficos para que encaixem noutras, organicamente diferentes, perspectivas de afirmação criativa (...sempre válidas, claro...) que qualquer artista plástico possa ter sobre o universo específico que decidiu explorar.

 

Para melhor ilustrar a minha posição sobre esta questão, diria que faz tanto sentido uma instalação de Arte Contemporânea que apenas integra fotografias como matéria-prima para um diferente plano criativo integrar um evento baptizado "WhateverPhotoWhatever", como o faria uma escultura em manteiga de um unicórnio a pisar notas de Euros integrar um hipotético evento paralelo designado "WTFGastronomiaWTF".

 

As tentativas de afirmação no restrito circuito da Arte Contemporânea por todo o tipo de putativos aspirantes a artista estão, hoje em dia, mais ligados ao desejo alcançar um "El Dorado" financeiro e/ou o "fast tracking" social proporcionado pelas "vernissages" de “flute” na mão do que a avançar propostas de expressão individual com as forças de clivagem que sempre se recomendaram para fracturar de forma amplificativa e dissonante as realidades e possíveis imaginários que nos rodeiam.

 

Nesta perspectiva e face ao que anteriormente afirmei, o juntar de "Photo" ao nome do certame daquele banco de má memória e periclitante presente, apenas ajuda a lançar confusão sobre o que é realmente a "Fotografia" e destina-se, principalmente, a dar uma mão a artistas de diversos níveis de competência, mão essa que pretende potenciar a presente especial aceitação da fotografia no nosso imaginário colectivo como forma de melhor afirmar as "hermenêuticas" tão necessárias ao "orientar de vidinhas".

 

Sairão, assim,mais ricos os artistas mas sai mais pobre a "Fotografia" pura-e-dura, a "hardcore", conforme a entendo, neste meu modo de ver as coisas.

 

Sobre este crua e prosaica face da Arte Contemporânea - uma das razões porque não gosto de ver a "Fotografia" em tais andanças - gostaria de compartilhar convosco um delicioso episódio e uma recomendação, para adicional articulação estruturante sobre o que agora escrevo.

 

Do episódio:

 

Com 2017 a acabar e tendo um tempinho livre no Porto, decidi ir ver a exposição do Tiago Madaleno em Serralves.

 

Ao contrário do que tem acontecido noutras vezes, não tinha tempo para calmamente usufruir de todas as exposições patentes e paguei apenas a entrada para ver em exclusivo o trabalho do vencedor do NovoBancoPhoto 2017.

 

A exposição constituía-se numa sala com esquissos conceptuais desenhados pelo artista, uma série muito numerosa de pequenas fotos obtidas por processo próximo de deguerreótipo/colódio, representando de forma repetida uma proto-ferramenta imersa em líquido, em várias profundidades/posições/visibilidades - fotos estes colocadas em fileira ao longo das paredes disponíveis para o efeito - e um projector de slides a passar as fotos que articulavam a linha conceptual da obra: Um explorador que vagueia pela urbe, a pé ou de bicicleta, fazendo um duplo percurso de descoberta, reflexo sobre a cidade e ele próprio, através das imagens que vai projectando de um aparelho dedicado, imaginado pelo próprio Tiago Madaleno.

 

Havia, ainda, mais uma ou duas peças que se articulavam no global da instalação.

 

Gostei muito da proposta conceptual, especialmente dos esquissos que revelaram o tipo de criador fervilhante e imaginativo que será o autor mas que, também, traíam o resultado final da instalação como apenas meio-acabado, relativamente à proposta que lhe valeu a escolha do júri.

 

As fotos nas paredes, tendo relativa fraca densidade individual enquanto tal, percebiam-se bem como o suporte eficaz à visão global do autor, funcionando bem nesse sentido mais amplo.

 

Avancemos, então e agora, para o substrato demonstrativo da hipocrisia reinante neste mundo da Arte Contemporânea:

 

O projector estava desligado.

 

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Reconhecendo de imediato a situação como uma de elevado potencial irónico, acabei de ver a exposição e, de seguida, dirigi-me, à bilheteira onde inquiri junto da jovem que me havia vendido o ingresso qual a razão de ser de o projector não estar a funcionar.

 

Fui informado que estava avariado e que já tinham chamado um técnico de manhã mas que até àquela hora (perto do fecho) ainda não tinha aparecido.

 

Respondi-lhe que compreendia a situação mas, também, que queria o valor da minha entrada de volta, tendo de imediato usufruído do seu olhar baralhado, acompanhado de balbuciante "ah, não…não devolvemos entradas".

 

Perdido de riso por dentro, pedi para falar com alguém responsável a quem, com ar mais sério do mundo, expliquei que, sendo a instalação de carácter conceptual e tendo sido desenhada segundo os critérios de intenção narrativa imaginada pelo autor, a falta de um elemento tão crucial para a descodificação da hermenêutica contida na obra que permitisse, de forma articulada, a sua compreensão global se construía numa falha incontornável no que respeitava minha capacidade de efectuar tal leitura no seu todo e que, portanto, não podia prescindir da devolução da entrada.

 

Claro está, a minha interlocutora teve a sensatez de perceber que acabava de ser vergada com o próprio argumentário que tanto gostam usar no meio para fazer a coisa espiralar como pretendido em direção às tais verdejantes pastagens, tendo ordenado de imediato a devolução do dinheiro da entrada.

 

Num certo sentido foi pena, porque tivessem teimado em fazer finca-pé e ter-me-iam dado a ferramenta perfeita para demonstrar a um universo mais alargado, para além deste nosso restrito fórum onde tão agradavelmente convivemos, que, quando toca ao "el contado", ao terra-à-terra mais básico e comezinho, comum a todos nós, seres humanos, acabam-se os "conceptuais" e as "hermenêuticas" e outro galo bem mais rude canta: "Avariou-se o projector? Siga para bingo. O intelecto de cada um que tape o buraco narrativo que nós precisamos de facturar" ;) 

 

…Quanto à recomendação para enquadramento complementar:

 

Se não viram ainda o excelente filme sueco "The Square", de Ruben Östlund, tentem fazê-lo.

 

Aborda de forma muito perspicaz esta duplicidade que mencionei, a "sofisticação para preenchimento de códigos sociais ascensionais” vs. “rude humanidade básica".

 

Vejam, por exemplo, as deliciosas cenas do episódio dos montinhos de areia e sua consequência e constatem como se articula com o que acabei de vos contar.

 

Entretanto, fiquemos a aguardar pela edição deste ano do NBP.

 

Pode ser que, por mera coincidência valha mesmo como propostas de "Fotografia" (como aconteceu, por exemplo com Pedro Motta, em 2013).

 

Se assim não for, lá sublimarei a frustração de não ver aquilo de tanto gosto bem acautelado e limitar-me-ei a apreciar o que de bom nos venha a ser oferecido no domínio da Arte Contemporânea, como foi o caso do Tiago Madaleno.

 

FK




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Partilhar Post #2 crocodilo

crocodilo

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    • Fuji X-Pro1, X-70, X-100F, XT-2. Máquinas a mais, talento a menos.

Publicado Hoje, 12:57

Que prazer me deu ler este texto! Parabéns pela lucidez e pela soberba capacidade de expressão. 

 

Como fotógrafo amador à procura de mais profundidade neste campo, há poucos meses frequentei em Madrid um curso relativamente longo de "Fotografia de Autor" (expressão castelhana que ainda não consegui traduzir para português ou inglês). Muitas aulas passei eu a rir-me por dentro de tudo o que me era exposto, sendo que mais de metade dos conteúdos eram dedicados apenas a técnicas de promoção do artista, colocação e valorização no mercado, etc. Produção de conteúdos? Quase zero. Mas tudo muito bem embrulhinho numa capa de modernismo e vagos conceitos que me divertiu à brava, até porque todos os outros alunos eram "jovens artistas" a tentar encontrar o seu ganha-pão. Acabei por completar o trabalho de fim de curso recorrendo a família e amigos, com excelentes momentos de convívio, para criar uma "obra" chamada "Half me, half cube", uma paródia travestida de arte. Se tiver curiosidade, pode consultá-la aqui:

 

https://egozarolho.com/halfmehalfcube

 

Mas aviso já: é gargalhada garantida!

 

Uma vez mais, obrigado pelo seu texto.